domingo, 19 de setembro de 2010

Eu sonhava

Lembro-me de te procurar nos boulevards de Paris, enquanto um violoncelista de barbas grisalhas dava o tom à queda outonal das folhas das árvores. Procuro-te como um entomófilo procura uma espécie de borboleta desconhecida. Mudo o nó do cachecol para ficar mais apertado em torno do pescoço e me proteger do frio.
Enquanto passeio, os meus olhos prendem-se nos chocolates apetitosos duma montra de rua. O aspecto limpo e gourmet sussura-me ao ouvido que é um bom sítio para comprar uns souvenirs originais, por isso entro sem ser indiferente ao aroma doce que envolve as bancadas onde os vários tipos de chocolates estão em exposição. Procuro chocolates com especiarias, porque gosto de sabores ousados e de combinações pouco convencionais.
Excuse moi” são as primeiras palavras que te digo, pois estás justamente em frente dos chocolates que quero levar. Nesse momento olhas para mim e leio nos teus olhos castanhos e enormes que estás perdida. Vejo as marcas de noites mal dormidas no teu rosto e aventuro-me até a dizer que estiveste a chorar.
Sorry” é a resposta que me dás, e afastas-te lentamente, como se fosses feita de sombras no ar e te pudesses desfazer num movimento mais súbito. Passas por mim e sinto o teu cheiro a flores, talvez violetas, não sei bem… Fico hipnotizado pela tua elegância, pela forma discreta como te diriges para a porta, e vejo-te sair, impotente perante o feitiço que me lançaste.

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