sábado, 2 de abril de 2011

A Roda da Fortuna (X)

O topo não está por cima e a base não fica em baixo, porque tudo gira e não se sabe onde vai parar.
As vitórias e as derrotas são duas faces da mesma moeda, atirada ao ar como uma bailarina num salto que em tudo depende do passo que deu antes.
Os sonhos e os pesadelos são pegadas de um mesmo futuro, onde todas as escolhas são labirintos e todas as decisões são como bolas de sabão, tomadas por nós, levadas pelo vento e desfeitas contra o pó.
A mudança aproxima-se e só a conseguirás enfrentar se souberes quem verdadeiramente és.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Eu sonhava

Longe vão os dias em que o Sol brilhava na inocência do teu sorriso e muita água passou na ribeira onde ambos nos aventurávamos naqueles distantes Verões sem fim. A árvore que plantámos no quintal da avó já deu frutos, mas nós esquecemo-nos de gozar a sua sombra. A quinta já não tem gatos, não se voltou a ouvir o ladrar dos podengos do avô e o tanque há muito que está seco. O vento fustiga as árvores esbeltas que outrora foram o nosso exército e eu sento-me exausto numa pedra fria a observar a morte, enquanto ela se passeia em meu redor, consumindo tudo aquilo em que toca. Nada receio, pois perdi todos os medos que tinha quando perdi a fé na vida. Limito-me a esperar e a rezar baixinho para que voltes.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Quando fecho os olhos...

... és tu quem eu vejo.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Piano... Pianissimo...

Encontrei-te por acaso numa esquina da vida e sorri-te. Não sabia quem eras, mas isso pouco importa quando se tem estrelas nos olhos e música nos lábios.
Soube, assim que me cumprimentaste, que eras um piano, multifacetado como uma pedra preciosa de brilho hipnotizante e perfumado com um jardim de rosas na Primavera. Pedi-te que chorasses comigo por tudo o que a vida me roubou e tu derramaste-te no Adagio de Albinoni. Descobri então que ninguém me compreendia como tu, limpei-te as feridas e cuidei de ti o melhor que sabia e podia. Tu abraçaste-me, encantaste-me e derrotaste o frio que havia em mim.
Um dia, que poderia ter sido como todos os outros mas não foi, começaste a sonhar, como se o primeiro raio de sol de Abril tivesse ganho vida em ti. Todos os rouxinóis do jardim vieram celebrar contigo e até o Céu foi buscar o seu vestido mais azul para dançar com o vento.
Seduziste-me e eu deixei-me derrotar, apaixonando-me por ti.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Eu comigo

Nunca fui pessoa de perder a esperança, de deixar que esse fogo que me anima o olhar se extinga. Não escolhi ser assim, da mesma forma que ninguém te ensinou a ser introspectivo. Eu aceito-te e tu a mim.
Sabia que os caminhos mais difíceis eram os únicos que me fariam feliz e, por isso, não hesitei quando me chamaste. Disseste-me para correr, e eu corri. Mandaste-me cantar, e eu cantei. Prometeste-me uma aventura, e eu estendi-te os braços e pedi que começasse agora mesmo.
Fomos os dois à descoberta de um mundo que fizemos nosso, dando nomes às pedras das ruas e vozes às janelas das casas. Eu ria-me quase sempre que vinhas comigo e tu sabias que só as minhas gargalhadas davam sentido à tua ironia.
Um dia percebi que estava sozinho. Senti-me perdido, meio cheio de esperanças e meio vazio de sonhos. Sabia que era inútil procurar-te, pois nunca exististe de facto, simplesmente ainda não me tinha apercebido disso. Disseram-me que estavas perdido, mas eu sei que apenas te escondeste deles, onde não te encontrarão e jamais poderão afastar de mim.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Tirem-me tudo...

... mas não me tirem a capacidade de renascer.


Às vezes, para ser capaz de arriscar, basta saber que sou capaz de recomeçar do zero, noutro sítio, com outras pessoas e a fazer coisas diferentes. Não tenho nada a recear, enquanto me tiver a mim.
Quem quiser vir comigo na bagagem é bem-vindo, desde que não faça peso. Não gosto de pessoas que fazem peso e, por isso, escolho apenas aquelas que se querem aventurar comigo.

para que conste...




... toda a gente merece uma história de amor.

P.S.: Obrigado pelas prendinhas tão cheias de encanto! =)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

para que conste...


assusta-me a capacidade que as pessoas têm de pensar pela própria cabeça. Esta simples capacidade quando exercitada regularmente pode levar-nos por caminhos inesperados e, em caso de uso generalizado, conduzir toda uma sociedade ao caos.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

II. Ela

Lá dentro, numa das salas do ginásio, ela dá mais uma lição de tango ao som de Astor Piazzola e do seu brilhante Libertango. A sua voz ecoa na sala, “Mãos mais levantadas, Pedro e Sofia”, “Cabeça erguida, Raquel”, “Mais paixão, Francisco”, as suas instruções são precisas e ritmadas, a música corre-lhe no sangue e a dança faz parte de todos os seus músculos. Começou no ballet, na escola inglesa, e quando tinha dominado a técnica, abraçou as danças de salão, tendo sido campeã nacional dois anos seguidos e até esteve perto do pódio no campeonato internacional, mas ela e o seu par, o Henrique, tiveram de se contentar com o quarto lugar. Já não o via há quase um ano, mas ele insistia que a queria voltar a ver (um descarado eufemismo para ter relações sexuais) e mandava-lhe mensagens regularmente, às quais ela geralmente não dava atenção, mas, de vez em quando, lhe respondia a dizer que não estava interessada. Ele era bronco e machista, o que não era compensado nem pelos seus braços fortes, nem pela incrível ligeireza com que ele a dominava no palco até se fundirem num só remoinho. Tempos houve em que as coisas foram diferentes…
Agora é tempo de pensar nela, em concluir o seu mestrado em Linguagem Corporal e arranjar um emprego estável que lhe permita ter a vida que ela merece após tantos anos de esforço contínuo e dedicação à dança.
A aula termina, os alunos aplaudem, ela faz uma ligeira vénia e despedem-se uns dos outros dizendo “até depois de amanhã”… nunca mais chega o fim-de-semana, nunca mais vem o Verão! Ela tira o CD da aparelhagem e arruma as suas coisas. Depois dum banho mais que merecido, sai do balneário das instrutoras com um vestido de malha azul-marinho, collants e botas de cano alto, não fosse hoje voltar a chover, apesar de os meteorologistas terem anunciado um dia de sol. A vida tornou-a uma pessoa desconfiada, começando justamente pelos desgraçados dos meteorologistas do fim do Telejornal, que nunca acertavam no tempo para o fim-de-semana. A Brandi Carlile canta Again Today na recepção da Escola de Dança e a música de certa forma espelha-se nos seus grandes olhos e até no sorriso que acompanha o “Boa noite! Até amanhã!”, e leva-a para casa. Há dois meses, teria o namorado à porta no seu Seat Ibiza vermelho de jantes cromadas, à espera dela para a levar a jantar ao Centro Comercial mais próximo e talvez depois a levasse ao cinema. Mas bastou uma semana após ela lhe ter falado em estarem mais tempo juntos e fazerem actividades como irem andar de bicicleta para o jardim nos Sábados à tarde ou irem dançar, para ele a deixar sob os argumentos de não gostar dos amigos dela, ela nunca querer ver os filmes que lhe apetecem a ele e estar farto dos programas culturais idiotas para os quais ela o arrasta, exposições de arte, bailaricos e outras secas. Quando o imbecil lhe virou costas e saiu da casa dela, chorou por se ter deixado enganar novamente ao pensar que sexo louco significa amor de verdade. Por momentos, quis provar a si mesma que, se se sentia usada, podia também manipular um pouco, e quase enviou uma mensagem ao antigo par a dizer “Volta, Henrique, estás perdoado”, mas a dignidade e a auto-estima, que nunca perdera, não lho permitiram.
Agora tinha de ir para casa sozinha, fazer o jantar, lavar alguma roupa e passar outra tanta a ferro, sempre ao som de música, a única companhia certa que tinha nos dias de hoje, fosse para trabalhar, para estudar, para chorar ou até para abafar os gritos quando sentia que não aguentava mais.
Ia a pé para casa, porque a distância não era grande e o ar fresco da noite na cara lhe sabia bem. Além disso, era mais uma oportunidade para passar por um ou outro homem que invariavelmente a acompanhavam com os olhos enquanto ela passava. O som dos tacões no passeio em compasso quaternário enchia-lhe o espírito e ajudava-a a construir uma coreografia nova, com tantas piruetas e tão rápida que só poderia funcionar realmente bem na sua cabeça. Que importa isso se os sonhos não têm de obedecer às leis da gravidade? Claro que não precisava de vasculhar muito na memória para se lembrar de bailarinos que se moviam com tão pouco esforço que parecia que as leis da física se vergavam perante as suas capacidades artísticas, para deleite geral de um público maravilhado. Sabia que não poderia ambicionar chegar tão longe como as bailarinas do número Countess Cathleen, do espectáculo Riverdance, mas, de repente, apeteceu-lhe ir a sapatear para casa. Imaginou-se a fazer piruetas nas pontas dos pés com um sorriso estampado nos lábios, alternando com um trotar elegantíssimo e um jogo de pernas que deixaria boquiaberto qualquer transeunte. Seria possível que, com mais horas de trabalho, tivesse atingido esse nível? A verdade é que ela nunca acreditou verdadeiramente que pudesse fazer da dança o seu ganha-pão, e quando não nos entregamos de corpo e alma a um sonho tão grande quanto este, ele nunca acontece. Contentou-se com um patamar abaixo, mas não estava arrependida.
Ao chegar a casa, a primeira coisa que faz é ligar o computador e procurar no youtube pelo Countess Cathleen. Na sala, sem os focos a ofuscarem-na, nem o peso de agradar aos espectadores, pode ousar ser Cathleen, uma condessa determinada, cuja bravura e talento ofuscam qualquer homem.

I. Ele

Esta história começa com o som de uma guitarra. São os acordes característicos do Concierto de Aranjuez, que enchem o jardim público com a leveza primaveril do primeiro andamento, dando luz ao frenesim das pessoas e à agitação dos pardais e dos pequenos esquilos.
Ele está sentado num banco, com a cabeça apoiada sobre os punhos, olhando em frente para os miúdos que jogam futebol. À sua direita espera pacientemente pela sua atenção um bloco de notas ainda por estrear. É então que ele tira uma esferográfica do bolso das calças e começa a organizar as ideias para o seu primeiro livro. Ele é jovem e está cheio de sonhos e ideias. Toda a vida lhe disseram que ele tinha um dom, que conseguia entrar na imaginação das pessoas, falar com elas nas suas histórias e falar sobre elas nos seus enredos, mesmo quando os seus contos eram sobre árvores falantes ou pequenos duendes. Disseram-lhe também que era um prodígio tendo em conta a sua idade. Agora já não era uma criança em competição com os coleguinhas da turma, e as várias editoras que contactou deixaram-lhe isso bem claro. Primeiro tinha de ter um argumento, fosse histórico, fantástico ou actual, pouco importava, desde que atraísse as pessoas e vendesse. Ao contrário de alguns colegas de faculdade que queriam ser eruditos na escrita, retorcidos nos enredos e cínicos em todas as frases, ele queria genuinamente desaguar as suas emoções naquelas folhas de papel, numa história com que as pessoas se identificassem, mas que ao mesmo tempo fosse interessante e acessível.
Hoje é um bom dia para escrever. A Primavera finalmente chegou e pode-se falar de amor, sem ser lamechas. Ora, quando se fala de amor, fala-se de traição, de mentiras, de enganos, desenganos e tragédias. Não que ele tenha alguma vez passado por tudo isso, mas pelo menos foi o que lhe contaram, o que ele leu e o que ele viu no cinema. A verdade é que ele nunca foi a personagem principal na sua vida, mas antes o amigo simpático e divertido que alivia a tensão nos momentos difíceis e alinha em todas as aventuras. Claramente, uma das personagens que não chega viva ao final do filme de terror, sem a sorte dos vencedores, nem o carisma dos líderes natos. Porque não escrever um livro sobre uma pessoa assim? O terceiro melhor aluno da turma, jogador de futebol mediano, mas muito amigo do capitão de equipa, com quem todas as raparigas gostam de ir tomar café, para falar da vida e se rirem um pouco, de preferência ao lanche, porque os planos para depois de jantar estão reservados para os rapazes com quem elas querem ir para cama. De alguma forma, esta personagem, ele chamou-lhe Tiago, vai ter de encontrar o amor da sua vida, conquistar a mulher dos seus sonhos, encontrar a profissão que mais tem a ver consigo e sobreviver num mundo de ambições e mesquinhices. O grande desafio da história é fazer do quotidiano uma aventura, espalhando a esperança de que todas as pessoas têm direito a viver uma história de amor. Mas antes disso, é tempo de arrumar os papéis e ir para casa, ou antes, o seu pequeno quarto alugado num bairro periférico da cidade, pois ainda tem uma distância longa a percorrer e nada feito para o jantar.
Ao entrar no metro, liga o iPod e começa a ouvir Jason Mraz, Sleep All Day, e a pensar na sua vida amorosa. Há 3 meses que não está com nenhuma mulher. A última, a Rita, tinha tudo para ser a tal, até ao dia em que chegou ao pé dele e lhe disse que as coisas não estavam a funcionar e que ela precisava de se sentir mais livre e duma relação menos estável. Passado uma semana (talvez menos, mas ele não queria pensar nisso) tinha começado a andar com um jogador da selecção nacional de râguebi. De qualquer forma, não tinha ainda esquecido completamente a anterior, a Patrícia, que tendo ido fazer um doutoramento para a Faculdade de Letras e Filosofia de Pádua, disse que não acreditava em relações à distância e que queria viver uma verdadeira experiência intercultural longe da família e dos amigos. "So far, so good", pelo que ouviu dizer duma amiga dela, a Patrícia estava cada vez mais familiarizada com a língua italiana, bem como com a alemã e a grega, entre outras. Declaração que foi seguida de um riso irritante e agudo, que ainda agora lhe dá nervos, só de recordar.
Já no caminho da estação de metro para casa, vê três mulheres muito bonitas e elegantes entrarem para um edifício com os seus sacos de ginástica. Ao passar, percebe que é uma escola de dança, com um letreiro a anunciar “Danças de Salão/Danças Latinas/ Tango Argentino”. Em letras garrafais e dum amarelo intenso está “-50%”, enquanto em letras bem mais pequenas está escrito “na jóia de inscrição”. A crise aperta todos os cintos, não haja dúvida. Aprender a dançar e, quem sabe, convidar uma daquelas raparigas que acabara de entrar para sair, parece uma ideia muito interessante e é com esta imagem na cabeça que segue a trautear para casa.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Procura-se quem me compreenda

O tempo tira-nos tudo, até aquilo que somos.
O tempo tirou-nos Imhotep e todos os outros arquitectos das pirâmides e dos templos do Antigo Egipto. O tempo tirou-nos Sócrates, Platão e Aristóteles. O tempo tirou-nos Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci e Botticelli. O tempo tirou-nos Beethoven e Bach.
Sobreviveram as pedras, transmitiram-se as ideias em lábios que não as aguentaram e páginas desaparecidas, guardou-se a arte e deixou-se que melodias ecoassem livremente por salões e jardins, mas não as pessoas. Tantas na história da humanidade nem sequer conseguiram inscrever os seus nomes nas listas de feitos memoráveis e em três gerações ou menos foram totalmente esquecidas.
Será assim a história da mulher a quem foi negada uma grande paixão por ser apenas a menina que distribuía os jornais. Será assim a história da mulher a quem o sonho foi tragicamente retirado, mas não antes dela lhe sentir um pouco do sabor e acreditar que tinha direito a vivê-lo. Será assim a história duma mulher que lutou para perdoar ao mundo a vida que não vingou.
Será assim a história de um homem que foi contra o regime e venceu. Será assim a história de um homem que foi contra a maré até ao outro lado do mundo. Será assim a história de um homem que cumpriu todas as leis, até ser tarde demais para as infringir.
É assim a história de homens bons e mulheres generosas, de lutadores e de resistentes, cujas escolhas retorceram as fibras do destino até chegar a mim. Apesar de ser feito do mesmo tecido, o tempo afasta-me deles, fazendo desvanecer as suas memórias, as suas conquistas, o seu sofrimento e as suas paixões, e, assim, recusando-me o direito a ter orgulho neles, começando já a apagar quem sou, até um dia eu próprio ser completamente esquecido.

Espelhos da alma

Quando não sei se me ouves e desconfio que não me vês, já não ouço Simple Plan, já não quero que o mundo gire à minha volta e sofra com a minha dor. Quando quero sentir-te perto de mim e acreditar que me acaricias o cabelo enquanto durmo, já não ouço Mafalda Veiga, recuso-me a viver uma ilusão. Quando me apetece rasgar o mundo com para me encontrar, já não ouço Damien Rice, já sei que não é na fúria que me vou encontrar.
Hoje ouço Again Today da Brandi Carlile e sei que as respostas não existem por si, constroem-se a cada dia, desvanecem de repente e surgem quando menos se espera, como uma chapada do destino.


sábado, 23 de outubro de 2010

In the land of happily ever after



os duetos são espontâneos, como se, de improviso, os corações batessem ao mesmo ritmo e as vozes afinassem no mesmo tom.

A vida teria muito mais piada com banda sonora anexa. Música motivacional, tipo "Don't give up", para os momentos difíceis. Um jingle piroso para as viagens de carro pelo meio dos campos, daqueles em que toda a gente no carro começa a cantar (por favor, não!). Além disso, um instrumental épico antes das grandes revelações ajudaria bastante a criar o ambiente certo. Num ponto de vista muito mais prática, saberíamos se correríamos perigo de vida ou não consoante a música que estivesse a tocar, por exemplo, enquanto estamos a tomar banho!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

para que conste...

Quando sair daqui, vou começar a arquitectar um plano para conquistar o mundo. Hoje sinto-me cheio de ideias!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Dance with me



... com ele também podes, mas só um bocadinho... com o outro eu já não acho tanta piada.

Os amantes (VI)



Quando olhares para ela, não guardes para ti nem um grão do que sentes. Envolve-a nos teus braços, como se nada mais na vida fizesse sentido, e diz-lhe ao ouvido tudo o que nunca ousaste dizer a ninguém. Vais sentir o coração estalar, como se um pequeno rouxinol estivesse prestes a eclodir, faminto de atenção e já com vontade de cantar.

Vais segurar-lhe na mão, como se fosse feita de porcelana, e vais fazê-la rodopiar sobre ela própria, uma volta, outra vez e mais um pouco, deixando-a de costas para ti. Não tenhas pressa, porque tens muito para sentir e ainda mais para largar. Beija-a docemente como se ela fosse uma flor, acariciando cada pétala e cada folha.

Deixa que a tua alma caia nela e se afunde no seu amor por ti. Deixa-te ir sem medo de ficares sem ar e aprende a respirar na atmosfera densa das suas emoções. Fecha os olhos e vê-a agarrar-te e transportar-te pelo seu mundo mágico, onde tu serás o seu príncipe.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

In the land of happily ever after


o amor simplesmente acontece e transforma-nos sem pedir licença.

Eu sonhava

Virei costas e deixei-te para trás, sentada no banco, a chorar. Primeiro senti uma dor aguda fortíssima, depois, simplesmente, deixei de sentir o que quer que fosse e comecei a andar. Segui pelo meio das árvores altas ao longo do parque, sentindo os teus soluços a embater em mim como o mar numa falésia.
Eu tentei, juro que tentei, mas não deu. Eu disse-te desde o início que não era capaz de me envolver, disse-te que era um cavalo selvagem indomável, sem dono nem senhor, forte como a terra e companheiro do vento. Tu riste-te, chamaste-me poeta e quiseste ter-me. As regras de sedução são tão simples que às vezes me pergunto como é possível haver ainda quem sofra com desilusões de amor.
Podia dizer-te que te amei à minha maneira. Podia até dizer em minha defesa que houve dias em que eu desejei entregar-te o meu coração e, com ele, o meu destino, mas ele não me saiu do peito. Por isso, cheguou uma altura em que não aguentava mais, em que todos os teus planos me sufocavam e em que não conseguia olhar para ti e desejar-te. Nunca consegui superar esta fase em nenhuma relação e contigo não foi excepção.
No teu lugar, teria gritado a plenos pulmões: “HIPÓCRITA! IDIOTA! IMBECIL!”, mas tu não és assim. Acho que foi por isso que acreditei genuinamente que contigo poderia ter sido diferente… que eu poderia ser diferente. Se um dia fores capaz de me perdoar, envia-me uma mensagem a combinar um café, por favor, nem que seja para me esfregares na cara que superaste a dor que te fiz sentir e que estás com alguém mil vezes melhor que eu.

domingo, 10 de outubro de 2010

Alguém disse...

Alguém disse que cada Homem tem um caminho, um destino, um plano traçado nos céus, uma estrada de sentido único em direcção à felicidade. Alguém disse que para cada pessoa há uma cor, um cheiro e um acorde, uma essência única e característica. Alguém nos levou a acreditar que o primeiro passo é encontrarmos a nossa estrela, mas eu já não acredito nisso.
Porquê ter um caminho predestinado, se há tantos trilhos por desbravar? Porquê uma estrela, quando o céu está cheio de tesouros desconhecidos? Porquê um bocado do tudo, se tudo o que temos nunca é suficiente? Mesmo que as minhas mãos não cheguem para carregar toda a areia da praia, os meus pés não se cansarão de dançar a noite inteira entre as dunas e o mar.
Por fim, quando chegar a altura, lembra-me que posso escolher um qualquer caminho entre mil, todos cuidadosamente dispostos para que eu possa ver com clareza que nenhum deles é meu, mas que qualquer um deles o poderá ser.

Uma pena por uma espada

If...

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise:

If you can dream – and not make dreams your master;
If you can think – and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build ‘em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: ‘Hold on!’

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with Kings – nor lose the common touch,
if neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And – which is more – you’ll be a Man, my son!

Rudyard Kipling

Tinha 10 anos quando o meu avô me deu para as mãos este poema. Decorei-o anos mais tarde, mesmo quando discordava de mais de metade dos versos. Agora que já quase o esqueci, percebo, com um misto de espanto e orgulho, que me estou a tornar nesta pessoa…

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A Justiça (XI)


Não dês conselhos a quem não tos pede, pois a única coisa que ganharás é uma discussão. Porém, se te vierem pedir, com o coração despido de preconceitos, uma orientação, não a negues a ninguém. Ouve, pondera e sorri sempre no fim, pois independentemente do conselho que deres, as pessoas sabem sempre o que querem e a única coisa que precisam é de um empurrão, alguém que possam culpar quando as coisas correrem mal. Por isso, nunca lhes digas o que querem ouvir, baralha-as, ataca as suas convicções e obriga-as a fecharem os olhos e a pesarem nas pontas dos dedos as consequências dos seus actos.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Eu sonhava



É tão bom acordar ao teu lado depois de uma noite passada juntinhos debaixo dos pesados cobertores. Sorris para mim com esse teu sorriso maroto e viras-te para o lado a fazer bolinha, no mais fofo “daqui não saio eu, daqui ninguém me tira” que eu já vi.
Ligo o rádio baixinho, levanto-me devagar e espreguiço-me muito ao som do “Against all odds”, na versão original, claro está, do Phill Collins. Vou à janela e abro as persianas para deixar os primeiros raios de sol da Primavera entrarem no nosso quarto.
Lembras-te que quando chegámos nevava tanto que parecia que nos iríamos transformar em estátuas de gelo se ficássemos parados mais que um minuto na rua? Havia uma camada de pelo menos 30 cm de neve à porta e nós escorregávamos muito ao tentar trazer as malas para dentro de casa. Foi um milagre nenhum de nós ter caído!
Assim que parou de nevar fomos para o jardim para atirar bolas de neve um ao outro, mas mal nos conseguíamos mexer com tantos casacos e camisolas que tínhamos vestidos. Com o gorro enfiado quase até aos olhos e o cachecol a tapar garganta, boca e nariz, parecíamos dois foragidos com medo de sermos identificados. Depois declarámos tréguas e fizemos o nosso primeiro boneco de neve, tão tosco que parecia um esboço de Botero. Eram basicamente três bolas de neve empilhadas, sem respeito por quaisquer proporções predefinidas para este tipo de estudo artístico, e não tínhamos nem botões, nem cartola e muito menos uma cenoura para fazer de acessórios ao pobre boneco de neve. Quanto aos cachecóis que tínhamos, faziam-nos demasiada falta para serem cedidos de forma tão gratuita. Entre galhos, gravilha e outras pedrinhas, conseguimos fazer uma obra-prima da arte pré-histórica. Só é pena que em pleno século XXI ninguém lhe tenha dado o devido valor, excepto nós, claro está.
Agora que penso nisso, parece que foi ontem, mas não foi. Parece que foi fácil, mas foi preciso ter muita coragem e abdicar de muitas coisas. Parece que tudo correu conforme planeado, mas os nossos sonhos e expectativas são sempre diferentes da realidade de todos os dias e foi graças à certeza de podermos contar sempre um com o outro que chegámos onde chegámos.
Ao virar-me, sei que os meus olhos vão encontrar os teus, desafiando-me. Eu vou sorrir, aquele meio sorriso que tu conheces tão bem, e vou voltar para os lençóis, chegar a boca bem junto ao teu ouvido e sussurar: “Amo-te muito”.

sábado, 2 de outubro de 2010

Vida a duas velocidades

Sabes aquelas pessoas que ora não fazem nada e se estendem no sofá displicentemente, ora correm dum lado para o outro, em grande agitação como se ao som das doze badaladas o mundo fosse acabar? Em primeiro lugar, não gosto da filosofia de vida, e, em segundo lugar, não quero ser assim.
Por um lado, há tantos andamentos intermédios entre o Gravissimo e o Prestissimo que não deveria ser difícil conseguir, em cada instante, escolher entre o Alegro e o Vivace ou entre o Lento e o Adagio, conforme melhor se adeqúe. E daí, talvez, como o sal na comida, seja uma arte que requer tempo, paciência e prática.
Por outro lado, sofro dum mal crónico, que é ter a cabeça sempre a altas rotações, até ao dia em que o motor gripar e me obrigar a descer a ladeira em ponto morto.

Never too old to be a child

domingo, 19 de setembro de 2010

Eu sonhava

Lembro-me de te procurar nos boulevards de Paris, enquanto um violoncelista de barbas grisalhas dava o tom à queda outonal das folhas das árvores. Procuro-te como um entomófilo procura uma espécie de borboleta desconhecida. Mudo o nó do cachecol para ficar mais apertado em torno do pescoço e me proteger do frio.
Enquanto passeio, os meus olhos prendem-se nos chocolates apetitosos duma montra de rua. O aspecto limpo e gourmet sussura-me ao ouvido que é um bom sítio para comprar uns souvenirs originais, por isso entro sem ser indiferente ao aroma doce que envolve as bancadas onde os vários tipos de chocolates estão em exposição. Procuro chocolates com especiarias, porque gosto de sabores ousados e de combinações pouco convencionais.
Excuse moi” são as primeiras palavras que te digo, pois estás justamente em frente dos chocolates que quero levar. Nesse momento olhas para mim e leio nos teus olhos castanhos e enormes que estás perdida. Vejo as marcas de noites mal dormidas no teu rosto e aventuro-me até a dizer que estiveste a chorar.
Sorry” é a resposta que me dás, e afastas-te lentamente, como se fosses feita de sombras no ar e te pudesses desfazer num movimento mais súbito. Passas por mim e sinto o teu cheiro a flores, talvez violetas, não sei bem… Fico hipnotizado pela tua elegância, pela forma discreta como te diriges para a porta, e vejo-te sair, impotente perante o feitiço que me lançaste.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

para que conste...

o verdadeiro génio é aquele que consegue perceber que todos os outros estão errados e provar-lhes, na sua lógica ou com os seus actos, que se pode ir mais longe.

domingo, 5 de setembro de 2010

Perdido nos teus olhos...

... e achado nas tuas mãos.

In the land of happily ever after




sometimes the most beautiful stories start on the wrong foot.

O monstro

Tenho um cravo espetado no coração. Em redor não há sinais de ferida, nada está em carne viva, tão pouco espreita uma única gota de sangue. O tempo cicatrizou o tecido na perfeição, deixando apenas uma leve rugosidade no contacto. Nem sequer dói quando o coração bate.

Tenho um espinho cravado no peito e vivo e respiro sem dar por ele, a menos que sucumba a acessos de adrenalina que me aceleram o sangue e fazem explodir por dentro. Nesses momentos de arritmia, cada batida é uma dor lancinante e, de olhos semicerrados, fecho os punhos e mordo o lábio para me conter. Por isso, prefiro não sentir e vaguear pelos meus dias com a solidão.

Não esperes que sorria quando chegas, nem que chore quando te fores embora. Não me peças que me apaixone ou que enlouqueça por ti. Não sonhes com mais do que te quero dar. Se não o conseguires, mantém o teu coração longe do meu castelo de gelo, algures onde a minha indiferença te for indiferente e onde a minha morte não corrompa a tua juventude.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

para que conste...


não ter medo de nos magoarmos faz a vida mais bonita, mas só enquanto a ilusão dura.