Lembro-me de te procurar nos boulevards de Paris, enquanto um violoncelista de barbas grisalhas dava o tom à queda outonal das folhas das árvores. Procuro-te como um entomófilo procura uma espécie de borboleta desconhecida. Mudo o nó do cachecol para ficar mais apertado em torno do pescoço e me proteger do frio.
Enquanto passeio, os meus olhos prendem-se nos chocolates apetitosos duma montra de rua. O aspecto limpo e gourmet sussura-me ao ouvido que é um bom sítio para comprar uns souvenirs originais, por isso entro sem ser indiferente ao aroma doce que envolve as bancadas onde os vários tipos de chocolates estão em exposição. Procuro chocolates com especiarias, porque gosto de sabores ousados e de combinações pouco convencionais.
“Excuse moi” são as primeiras palavras que te digo, pois estás justamente em frente dos chocolates que quero levar. Nesse momento olhas para mim e leio nos teus olhos castanhos e enormes que estás perdida. Vejo as marcas de noites mal dormidas no teu rosto e aventuro-me até a dizer que estiveste a chorar.
“Sorry” é a resposta que me dás, e afastas-te lentamente, como se fosses feita de sombras no ar e te pudesses desfazer num movimento mais súbito. Passas por mim e sinto o teu cheiro a flores, talvez violetas, não sei bem… Fico hipnotizado pela tua elegância, pela forma discreta como te diriges para a porta, e vejo-te sair, impotente perante o feitiço que me lançaste.
domingo, 19 de setembro de 2010
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
para que conste...
o verdadeiro génio é aquele que consegue perceber que todos os outros estão errados e provar-lhes, na sua lógica ou com os seus actos, que se pode ir mais longe.
domingo, 5 de setembro de 2010
O monstro
Tenho um cravo espetado no coração. Em redor não há sinais de ferida, nada está em carne viva, tão pouco espreita uma única gota de sangue. O tempo cicatrizou o tecido na perfeição, deixando apenas uma leve rugosidade no contacto. Nem sequer dói quando o coração bate.
Tenho um espinho cravado no peito e vivo e respiro sem dar por ele, a menos que sucumba a acessos de adrenalina que me aceleram o sangue e fazem explodir por dentro. Nesses momentos de arritmia, cada batida é uma dor lancinante e, de olhos semicerrados, fecho os punhos e mordo o lábio para me conter. Por isso, prefiro não sentir e vaguear pelos meus dias com a solidão.
Não esperes que sorria quando chegas, nem que chore quando te fores embora. Não me peças que me apaixone ou que enlouqueça por ti. Não sonhes com mais do que te quero dar. Se não o conseguires, mantém o teu coração longe do meu castelo de gelo, algures onde a minha indiferença te for indiferente e onde a minha morte não corrompa a tua juventude.
Tenho um espinho cravado no peito e vivo e respiro sem dar por ele, a menos que sucumba a acessos de adrenalina que me aceleram o sangue e fazem explodir por dentro. Nesses momentos de arritmia, cada batida é uma dor lancinante e, de olhos semicerrados, fecho os punhos e mordo o lábio para me conter. Por isso, prefiro não sentir e vaguear pelos meus dias com a solidão.
Não esperes que sorria quando chegas, nem que chore quando te fores embora. Não me peças que me apaixone ou que enlouqueça por ti. Não sonhes com mais do que te quero dar. Se não o conseguires, mantém o teu coração longe do meu castelo de gelo, algures onde a minha indiferença te for indiferente e onde a minha morte não corrompa a tua juventude.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
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