
É tão bom acordar ao teu lado depois de uma noite passada juntinhos debaixo dos pesados cobertores. Sorris para mim com esse teu sorriso maroto e viras-te para o lado a fazer bolinha, no mais fofo “daqui não saio eu, daqui ninguém me tira” que eu já vi.
Ligo o rádio baixinho, levanto-me devagar e espreguiço-me muito ao som do “Against all odds”, na versão original, claro está, do Phill Collins. Vou à janela e abro as persianas para deixar os primeiros raios de sol da Primavera entrarem no nosso quarto.
Lembras-te que quando chegámos nevava tanto que parecia que nos iríamos transformar em estátuas de gelo se ficássemos parados mais que um minuto na rua? Havia uma camada de pelo menos 30 cm de neve à porta e nós escorregávamos muito ao tentar trazer as malas para dentro de casa. Foi um milagre nenhum de nós ter caído!
Assim que parou de nevar fomos para o jardim para atirar bolas de neve um ao outro, mas mal nos conseguíamos mexer com tantos casacos e camisolas que tínhamos vestidos. Com o gorro enfiado quase até aos olhos e o cachecol a tapar garganta, boca e nariz, parecíamos dois foragidos com medo de sermos identificados. Depois declarámos tréguas e fizemos o nosso primeiro boneco de neve, tão tosco que parecia um esboço de Botero. Eram basicamente três bolas de neve empilhadas, sem respeito por quaisquer proporções predefinidas para este tipo de estudo artístico, e não tínhamos nem botões, nem cartola e muito menos uma cenoura para fazer de acessórios ao pobre boneco de neve. Quanto aos cachecóis que tínhamos, faziam-nos demasiada falta para serem cedidos de forma tão gratuita. Entre galhos, gravilha e outras pedrinhas, conseguimos fazer uma obra-prima da arte pré-histórica. Só é pena que em pleno século XXI ninguém lhe tenha dado o devido valor, excepto nós, claro está.
Agora que penso nisso, parece que foi ontem, mas não foi. Parece que foi fácil, mas foi preciso ter muita coragem e abdicar de muitas coisas. Parece que tudo correu conforme planeado, mas os nossos sonhos e expectativas são sempre diferentes da realidade de todos os dias e foi graças à certeza de podermos contar sempre um com o outro que chegámos onde chegámos.
Ao virar-me, sei que os meus olhos vão encontrar os teus, desafiando-me. Eu vou sorrir, aquele meio sorriso que tu conheces tão bem, e vou voltar para os lençóis, chegar a boca bem junto ao teu ouvido e sussurar: “Amo-te muito”.
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