segunda-feira, 15 de novembro de 2010

II. Ela

Lá dentro, numa das salas do ginásio, ela dá mais uma lição de tango ao som de Astor Piazzola e do seu brilhante Libertango. A sua voz ecoa na sala, “Mãos mais levantadas, Pedro e Sofia”, “Cabeça erguida, Raquel”, “Mais paixão, Francisco”, as suas instruções são precisas e ritmadas, a música corre-lhe no sangue e a dança faz parte de todos os seus músculos. Começou no ballet, na escola inglesa, e quando tinha dominado a técnica, abraçou as danças de salão, tendo sido campeã nacional dois anos seguidos e até esteve perto do pódio no campeonato internacional, mas ela e o seu par, o Henrique, tiveram de se contentar com o quarto lugar. Já não o via há quase um ano, mas ele insistia que a queria voltar a ver (um descarado eufemismo para ter relações sexuais) e mandava-lhe mensagens regularmente, às quais ela geralmente não dava atenção, mas, de vez em quando, lhe respondia a dizer que não estava interessada. Ele era bronco e machista, o que não era compensado nem pelos seus braços fortes, nem pela incrível ligeireza com que ele a dominava no palco até se fundirem num só remoinho. Tempos houve em que as coisas foram diferentes…
Agora é tempo de pensar nela, em concluir o seu mestrado em Linguagem Corporal e arranjar um emprego estável que lhe permita ter a vida que ela merece após tantos anos de esforço contínuo e dedicação à dança.
A aula termina, os alunos aplaudem, ela faz uma ligeira vénia e despedem-se uns dos outros dizendo “até depois de amanhã”… nunca mais chega o fim-de-semana, nunca mais vem o Verão! Ela tira o CD da aparelhagem e arruma as suas coisas. Depois dum banho mais que merecido, sai do balneário das instrutoras com um vestido de malha azul-marinho, collants e botas de cano alto, não fosse hoje voltar a chover, apesar de os meteorologistas terem anunciado um dia de sol. A vida tornou-a uma pessoa desconfiada, começando justamente pelos desgraçados dos meteorologistas do fim do Telejornal, que nunca acertavam no tempo para o fim-de-semana. A Brandi Carlile canta Again Today na recepção da Escola de Dança e a música de certa forma espelha-se nos seus grandes olhos e até no sorriso que acompanha o “Boa noite! Até amanhã!”, e leva-a para casa. Há dois meses, teria o namorado à porta no seu Seat Ibiza vermelho de jantes cromadas, à espera dela para a levar a jantar ao Centro Comercial mais próximo e talvez depois a levasse ao cinema. Mas bastou uma semana após ela lhe ter falado em estarem mais tempo juntos e fazerem actividades como irem andar de bicicleta para o jardim nos Sábados à tarde ou irem dançar, para ele a deixar sob os argumentos de não gostar dos amigos dela, ela nunca querer ver os filmes que lhe apetecem a ele e estar farto dos programas culturais idiotas para os quais ela o arrasta, exposições de arte, bailaricos e outras secas. Quando o imbecil lhe virou costas e saiu da casa dela, chorou por se ter deixado enganar novamente ao pensar que sexo louco significa amor de verdade. Por momentos, quis provar a si mesma que, se se sentia usada, podia também manipular um pouco, e quase enviou uma mensagem ao antigo par a dizer “Volta, Henrique, estás perdoado”, mas a dignidade e a auto-estima, que nunca perdera, não lho permitiram.
Agora tinha de ir para casa sozinha, fazer o jantar, lavar alguma roupa e passar outra tanta a ferro, sempre ao som de música, a única companhia certa que tinha nos dias de hoje, fosse para trabalhar, para estudar, para chorar ou até para abafar os gritos quando sentia que não aguentava mais.
Ia a pé para casa, porque a distância não era grande e o ar fresco da noite na cara lhe sabia bem. Além disso, era mais uma oportunidade para passar por um ou outro homem que invariavelmente a acompanhavam com os olhos enquanto ela passava. O som dos tacões no passeio em compasso quaternário enchia-lhe o espírito e ajudava-a a construir uma coreografia nova, com tantas piruetas e tão rápida que só poderia funcionar realmente bem na sua cabeça. Que importa isso se os sonhos não têm de obedecer às leis da gravidade? Claro que não precisava de vasculhar muito na memória para se lembrar de bailarinos que se moviam com tão pouco esforço que parecia que as leis da física se vergavam perante as suas capacidades artísticas, para deleite geral de um público maravilhado. Sabia que não poderia ambicionar chegar tão longe como as bailarinas do número Countess Cathleen, do espectáculo Riverdance, mas, de repente, apeteceu-lhe ir a sapatear para casa. Imaginou-se a fazer piruetas nas pontas dos pés com um sorriso estampado nos lábios, alternando com um trotar elegantíssimo e um jogo de pernas que deixaria boquiaberto qualquer transeunte. Seria possível que, com mais horas de trabalho, tivesse atingido esse nível? A verdade é que ela nunca acreditou verdadeiramente que pudesse fazer da dança o seu ganha-pão, e quando não nos entregamos de corpo e alma a um sonho tão grande quanto este, ele nunca acontece. Contentou-se com um patamar abaixo, mas não estava arrependida.
Ao chegar a casa, a primeira coisa que faz é ligar o computador e procurar no youtube pelo Countess Cathleen. Na sala, sem os focos a ofuscarem-na, nem o peso de agradar aos espectadores, pode ousar ser Cathleen, uma condessa determinada, cuja bravura e talento ofuscam qualquer homem.

1 comentário:

BeaRose disse...

Tango é uma das minhas paixões :)... Obrigada pelos comments e desculpa só os ter aceitado ainda há pouco. Tenho que estar mais atenta a estas coisas mas ultimamente não tenho tido tempo.