segunda-feira, 15 de novembro de 2010

I. Ele

Esta história começa com o som de uma guitarra. São os acordes característicos do Concierto de Aranjuez, que enchem o jardim público com a leveza primaveril do primeiro andamento, dando luz ao frenesim das pessoas e à agitação dos pardais e dos pequenos esquilos.
Ele está sentado num banco, com a cabeça apoiada sobre os punhos, olhando em frente para os miúdos que jogam futebol. À sua direita espera pacientemente pela sua atenção um bloco de notas ainda por estrear. É então que ele tira uma esferográfica do bolso das calças e começa a organizar as ideias para o seu primeiro livro. Ele é jovem e está cheio de sonhos e ideias. Toda a vida lhe disseram que ele tinha um dom, que conseguia entrar na imaginação das pessoas, falar com elas nas suas histórias e falar sobre elas nos seus enredos, mesmo quando os seus contos eram sobre árvores falantes ou pequenos duendes. Disseram-lhe também que era um prodígio tendo em conta a sua idade. Agora já não era uma criança em competição com os coleguinhas da turma, e as várias editoras que contactou deixaram-lhe isso bem claro. Primeiro tinha de ter um argumento, fosse histórico, fantástico ou actual, pouco importava, desde que atraísse as pessoas e vendesse. Ao contrário de alguns colegas de faculdade que queriam ser eruditos na escrita, retorcidos nos enredos e cínicos em todas as frases, ele queria genuinamente desaguar as suas emoções naquelas folhas de papel, numa história com que as pessoas se identificassem, mas que ao mesmo tempo fosse interessante e acessível.
Hoje é um bom dia para escrever. A Primavera finalmente chegou e pode-se falar de amor, sem ser lamechas. Ora, quando se fala de amor, fala-se de traição, de mentiras, de enganos, desenganos e tragédias. Não que ele tenha alguma vez passado por tudo isso, mas pelo menos foi o que lhe contaram, o que ele leu e o que ele viu no cinema. A verdade é que ele nunca foi a personagem principal na sua vida, mas antes o amigo simpático e divertido que alivia a tensão nos momentos difíceis e alinha em todas as aventuras. Claramente, uma das personagens que não chega viva ao final do filme de terror, sem a sorte dos vencedores, nem o carisma dos líderes natos. Porque não escrever um livro sobre uma pessoa assim? O terceiro melhor aluno da turma, jogador de futebol mediano, mas muito amigo do capitão de equipa, com quem todas as raparigas gostam de ir tomar café, para falar da vida e se rirem um pouco, de preferência ao lanche, porque os planos para depois de jantar estão reservados para os rapazes com quem elas querem ir para cama. De alguma forma, esta personagem, ele chamou-lhe Tiago, vai ter de encontrar o amor da sua vida, conquistar a mulher dos seus sonhos, encontrar a profissão que mais tem a ver consigo e sobreviver num mundo de ambições e mesquinhices. O grande desafio da história é fazer do quotidiano uma aventura, espalhando a esperança de que todas as pessoas têm direito a viver uma história de amor. Mas antes disso, é tempo de arrumar os papéis e ir para casa, ou antes, o seu pequeno quarto alugado num bairro periférico da cidade, pois ainda tem uma distância longa a percorrer e nada feito para o jantar.
Ao entrar no metro, liga o iPod e começa a ouvir Jason Mraz, Sleep All Day, e a pensar na sua vida amorosa. Há 3 meses que não está com nenhuma mulher. A última, a Rita, tinha tudo para ser a tal, até ao dia em que chegou ao pé dele e lhe disse que as coisas não estavam a funcionar e que ela precisava de se sentir mais livre e duma relação menos estável. Passado uma semana (talvez menos, mas ele não queria pensar nisso) tinha começado a andar com um jogador da selecção nacional de râguebi. De qualquer forma, não tinha ainda esquecido completamente a anterior, a Patrícia, que tendo ido fazer um doutoramento para a Faculdade de Letras e Filosofia de Pádua, disse que não acreditava em relações à distância e que queria viver uma verdadeira experiência intercultural longe da família e dos amigos. "So far, so good", pelo que ouviu dizer duma amiga dela, a Patrícia estava cada vez mais familiarizada com a língua italiana, bem como com a alemã e a grega, entre outras. Declaração que foi seguida de um riso irritante e agudo, que ainda agora lhe dá nervos, só de recordar.
Já no caminho da estação de metro para casa, vê três mulheres muito bonitas e elegantes entrarem para um edifício com os seus sacos de ginástica. Ao passar, percebe que é uma escola de dança, com um letreiro a anunciar “Danças de Salão/Danças Latinas/ Tango Argentino”. Em letras garrafais e dum amarelo intenso está “-50%”, enquanto em letras bem mais pequenas está escrito “na jóia de inscrição”. A crise aperta todos os cintos, não haja dúvida. Aprender a dançar e, quem sabe, convidar uma daquelas raparigas que acabara de entrar para sair, parece uma ideia muito interessante e é com esta imagem na cabeça que segue a trautear para casa.

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