segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Procura-se quem me compreenda

O tempo tira-nos tudo, até aquilo que somos.
O tempo tirou-nos Imhotep e todos os outros arquitectos das pirâmides e dos templos do Antigo Egipto. O tempo tirou-nos Sócrates, Platão e Aristóteles. O tempo tirou-nos Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci e Botticelli. O tempo tirou-nos Beethoven e Bach.
Sobreviveram as pedras, transmitiram-se as ideias em lábios que não as aguentaram e páginas desaparecidas, guardou-se a arte e deixou-se que melodias ecoassem livremente por salões e jardins, mas não as pessoas. Tantas na história da humanidade nem sequer conseguiram inscrever os seus nomes nas listas de feitos memoráveis e em três gerações ou menos foram totalmente esquecidas.
Será assim a história da mulher a quem foi negada uma grande paixão por ser apenas a menina que distribuía os jornais. Será assim a história da mulher a quem o sonho foi tragicamente retirado, mas não antes dela lhe sentir um pouco do sabor e acreditar que tinha direito a vivê-lo. Será assim a história duma mulher que lutou para perdoar ao mundo a vida que não vingou.
Será assim a história de um homem que foi contra o regime e venceu. Será assim a história de um homem que foi contra a maré até ao outro lado do mundo. Será assim a história de um homem que cumpriu todas as leis, até ser tarde demais para as infringir.
É assim a história de homens bons e mulheres generosas, de lutadores e de resistentes, cujas escolhas retorceram as fibras do destino até chegar a mim. Apesar de ser feito do mesmo tecido, o tempo afasta-me deles, fazendo desvanecer as suas memórias, as suas conquistas, o seu sofrimento e as suas paixões, e, assim, recusando-me o direito a ter orgulho neles, começando já a apagar quem sou, até um dia eu próprio ser completamente esquecido.

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